Então estava lá de novo, na caminha, no recanto escuro e tão bonzinho de não acordar, não levantar.
Prova no dia seguinte, coragem nenhuma. Lá vai um banho, no maior dos caprichos, mas tomar banho caprichado é detestável, sempre dá uma sensação de quero morrer, acabam-se as coisas, todos os sons, todas as pessoas e tudo cala, tão quieto que nem nos reconhecemos.
Aí, não tenho vontade nem de ver pessoas, até mesmo as de que gosto, na verdade, elas se tornam um pé com frieira. Daquelas que coçam pra caramba.
Sem a menor vontade de voltar pra rotina, nem pra todas as pessoas que fazem parte dela, eu caminhava por permanência, só pra andar...
Foi então que eu entrei na sala da Britânica, eu vi um rostinho que parecia aqueles de peça teatral infantil quando tem uma avó na história. Foi como uma luzinha pra mim. Tão linda ela, tão bonitinha, com o seu inglês puxadinho, até meio tosquinho, meio aportuguesado, eu achei tão fofinho. Eu só conseguia pensar que ela estava ali por mim, pra mim, só pra mim.
Ela ficou lá na sala fazendo um monte de gracinha, ainda mais quando eu disse:
- Teacher, excuse me, what's your name?
- Oh, sweet darling, I said when I get in, my name is Marlúcia.
Marlúcia, gente, quase Marla! Ai, que eu me apaixonei mais ainda, o mais magnífico é que eu nunca a tinha visto ali, nunca. Foi uma maravilha a aula, ela fez a gente repetir um monte de coisas, e era tudo que eu precisava naquele dia, ser tratada como aluna do primário aprendendo...
- Repeat, class! Come on! Have you been to Italy?
Ai, ai, Dona Marlúcia... (L)
Que mais dias do meu ano sejam curadas por essas criaturinhas, enchendo a minha pronúncia de erro e o meu dia de alegria.
Porque eu só preciso de pés livres, de mãos dadas e de olhos bem abertos. (Guimarães Rosa)
terça-feira, 10 de junho de 2008
segunda-feira, 21 de janeiro de 2008
Quase palavra ou onomatopéias.
Desde criança, devo confessar que não há nada que me deixe mais comovida do que as onomatopéias. E olhe só! Três meses. É tudo que um mini-ser humano precisa para escutar. Nessa época, os bebês não têm aparelho auditivo formado, eles misturam os sentidos e estes são espalhados pelo corpo, na pele. E é mais ou menos assim que acontece comigo até hoje. Todo tempo, o tempo todo, com qualquer som. São eles que trazem o de mais verdadeiro que se pode esperar de outra pessoa. Porque é impulso, reflexo. Ultimamente, tenho aproveitado mais das conversas através desses microsons do que com a união de letrinhas, que formam palavras, numa frase cheeeia de adjuntos, apostos, objetos, verbos e zás.
Um ‘tsc’ de decepção, reprovação ou zombaria é mais válido para comprovar as situações. Mesmo porque essas expressões nunca vêm sozinhas, sempre têm gestos e cacoetes se lhe colados.
Até o barulho, como as cerejas de Lygia Fagundes Telles caindo. Seria o fim de toda a doçura que existia. ‘As cerejas se despencavam sonoras como enormes bagos de chuva caindo de uma goteira’. Nada em dias pôde ter mais crueldade do que o barulho delas caindo. Eu acredito mesmo que, de todo o conto, a magia maior é quando elas caem. Eu pude sentir isso aos 17 anos na primeira vez que o li. Acho que a Lygia fez isso o tempo todo. Com o galopar do cavalo de Marcelo, com o crochê da Madrinha e as inesquecíveis cerejas vermelhas de Tia Olívia.
Do mesmo jeito, a música. Que se pode classificar, amar e odiar. Cada um de nós, à sua própria percepção. O jeito de emocionar, o levantar e abaixar de notas, tons e cordas. Fazendo que até o Chico sem pretensão – desta vez não, foi acidente! – pusesse o céu no mais agudo e o chão no mais grave. Até mesmo quando não existe instrumento, só voz. E, ainda assim, arrepiam-nos os fios.
Eu poderia mesmo falar de todos os tipos de sons que tenho ouvido nos dias de minha vida, usar toda a intertextualidade que eu pudera, até mesmo dos sustos que tive e do barulho de minha respiração frenética a fim de que me acalme.
Grandes sustos. Grandes pesadelos. Que me levam a choros compulsivos. Cheios de ais e de uis e que me pesam na cabeça. No way.
Grandes sustos. Grandes pesadelos. Que me levam a choros compulsivos. Cheios de ais e de uis e que me pesam na cabeça. No way.
A grande verdade é que eu só fiz isso para falar de um único som. Que me põe emocionada como o diabo, tonta como o fechar de olhos em embriaguez e que, acompanhada de mãos enlaçadas, suga-me o ar. É a minha quase-palavra. A nossa quase-palavra. A que um de nós murmura.
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